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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ensino Superior como factor impulsionador da mobilidade espacial: Caso de estudo do bairro da Polana Caniço “A”

Ensino Superior como factor impulsionador da mobilidade espacial: Caso de estudo do bairro da Polana Caniço “A”

Introdução
Hoje em dia, não se pode pensar em desenvolvimento económico e social sem se pensar em mobilidade espacial. As pessoas precisam se deslocar para estudar, trabalhar, fazer compras, viajar e possuem cada vez mais necessidade de estar em movimento.

Justificativa
A escolha do tema Ensino Superior como factor impulsionador da mobilidade espacial surgiu do impressionante interesse suscitado durante as aulas de Demografia, numa primeira fase, e das de Evolução do Pensamento Geográfico e por ser um dos fenómenos da dinâmica da população pouco explorados. Entretanto, numa segunda fase, a participação em diversas palestras, que versam sobre a migração também despertou um certo interesse em querer perceber da melhor forma este fenómeno. Portanto, mais do que uma escolha guiada por mero fanatismo pela área das migrações, moveu-nos a constante bibliografia com a qual íamos nos confrontando no nosso dia-a-dia, que não tenta perceber de forma localizada o efeito e as reais causas, que podem estar a mover parte da população estudantil e não estudantil para o bairro da Polana Caniço “A”.
A compreensão de diversos factores, que na essência constituem o pano de fundo do processo da mobilidade espacial no bairro pode facilitar o melhor desenho de políticas sobre o desenvolvimento localizado do bairro.
Na actualidade, as literaturas sobre as migrações produzidas por instituições internacionalmente reconhecidas, como IOM (International Organization of Migration), Nações Unidas, etc. têm dado muita ênfase aos aspectos macro da migração em “detrimento” às migrações internas, por isso, cabe a nós os moçambicanos a produção da nossa própria literatura na matéria, daí o aparecimento deste trabalho como forma de acrescer o pouco acervo bibliotecário, que até então existe.
Ao longo da licenciatura, frequentamos várias bibliotecas, porém o acervo bibliotecário disponível mostra que poucos estudos são direccionados para compreender o fenómeno “migração” e relacioná-lo com a influência, que o Ensino Superior tem como factor da mobilidade espacial.
O outro aspecto, que eleva a nossa motivação em desenvolver o presente trabalho, prende-se ao facto de este poder ser um contributo para o crescimento académico, no concernente à compreensão da manifestação da mobilidade espacial em Moçambique.
Entretanto, não pretendemos esgotar este tema, nem neste trabalho nem noutros subsequentes, mas trazer um panorama do que realmente acontece no bairro, no que concerne à mobilidade espacial. Hall (1992:8-9) lembra, que “como ocorre com muitos outros fenómenos sociais, é impossível oferecer afirmações conclusivas ou fazer julgamento seguro sobre as alegações e proposições teóricas, que estão sendo apresentados neste trabalho.
O que ditou para a escolha deste bairro como nosso lugar de estudo foi o facto de este localizar-se nas cercanias da cidade de Maputo e isso facilita-nos o acesso deste local sem muitos dispêndios monetários nem muito desgaste físico, e, portanto, a outra razão prende-se ao factor comunicação com os nossos potenciais entrevistados, em língua local se necessário, que de algum modo facilita o nosso trabalho sem precisar de um ou mais tradutores.
Acreditamos, que a relevância deste trabalho, que ora, estamos fazendo encontra-se ao tentar dar uma resposta ou várias às inquietações, que concomitantemente têm vindo a apoquentar a comunidade científica em geral e, provavelmente os, directamente afectados. Os resultados deste trabalho podem oferecer-nos oportunidade para reflectir sobre a parte oculta da mobilidade populacional motivada por factores de ordem local, que podem concorrer para a agudização deste fenómeno.
Um conhecimento empírico leva-nos a aferir, que no bairro em estudo não só acontece a mobilidade espacial no sentido de entrada e saída de pessoas como também tem se assistido a mobilidade residencial , quotidiana , etc. Este e outros factos têm sido vistos diariamente neste bairro sobre o olhar impávido dos cientistas e investigadores do nosso país.

Problema de Estudo
A localização do bairro da Polana Caniço “A” parece ser estratégica em relação à aderência para os estudantes.
O bairro da Polana Caniço “A” apresenta-se como sendo um dos que mais população estudantil alberga e tem sido uma óbvia preferência dos estudantes para residir. De referir, que este bairro encontra-se perto da Universidade Eduardo Mondlane, por sinal a mais antiga do país, o que à primeira vista dá a impressão de ser um dos grandes impulsionadores da atracção da população estudantil. Mas, há que considerar que, existem estudantes, que não sejam desta instituição do Ensino Superior, que preferem residir neste bairro, portanto, este facto, despoletou uma certa curiosidade científica e esta, por sua vez determinou, que este bairro fosse o local mais adequado para procurarmos saber da motivação que leva a que alguns estudantes se instalem neste bairro. Conforme já nos tínhamos referido no princípio, que o bairro tem também recebido pessoas não estudantes, porém trabalhadoras, por causa disso pretendemos saber dos principais atractivos, que o bairro oferece para os imigrantes. Qual é que pode ser a influência exercida pela Universidade Eduardo Mondlane para a entrada maciça de imigrantes.

Objectivo geral
 Avaliar o papel do Ensino Superior como factor da mobilidade espacial.

Específicos
 Identificar a influência, que o Ensino Superior tem na migração da população.
 Perceberer as características dos estudantes migrantes;
 Conhecer as motivações na escolha do bairro para a fixação dos estudantes migrantes.


Quadro teórico e conceptual
Fenómeno migração
A mobilidade espacial dos indivíduos ou dos agregados familiares tem sido um campo de pesquisa muito importante nas ciências sociais e espaciais desde o trabalho de RAVENSTEIN (1885 - 1889) “The Law of Migration”.
Autores como Jansen (1969); Bilale (2007); Raimundo (2009b); Guimarães (2010), só para elucidar alguns deles, consideram a migração tão antiga quanto a história do próprio Homem. E, a história da humanidade foi sempre marcada por constantes migrações, mas sem os objectivos, que preconizam as migrações actuais e, rigorosamente analisando, consideram, que a humanidade nunca enfrentou um verdadeiro estágio de sedentarismo (Araújo & Raimundo, 2002).
Não é possível imaginar a vida sem qualquer tipo de deslocação, (Bilale, 2007; Raimundo, 2009a). Para Bilale (2007) a vida é constituída por um ritmo de sucessivas deslocações ligas ao trabalho, a escola, acções de formação e, com menor frequência, as deslocações podem estar relacionadas a necessidades médicas, administrativas, de lazer, amizades e familiares ou mesmo com a mudança de residência, de região ou mesmo do país.
Araújo (2001) afirma que, a maior parte da população migrante a nível mundial é jovem. E, é exactamente por esse motivo, que focalizamos o nosso trabalho a este grupo maioritário. Não obstante, serão também estudadas faixas etárias não muito jovens, de como sugere, Araújo, 2001.

Conceitos de migração
Para Santos et al. (1980), Araújo (2001), Raimundo (2002), Bilale (2007), apenas para referenciar alguns autores, são consensuais em afirmar, que quanto à definição de migrações, verifica-se uma inexistência de um consenso, que satisfaça plenamente às diferentes possibilidades de manifestação do fenómeno sendo que a definição da ONU constitui um ponto de referência ao estudo das migrações . Observando, que “o conceito (...) é aplicável somente no caso de população relativamente estabelecida no espaço, migração é definida como a forma de mobilidade espacial entre uma unidade espacial geográfica e outra, envolvendo mudança permanente de residência”.

Alterando o tamanho e a composição das populações (distribuição por sexo, idade e composição da força de trabalho), a migração é uma das bases da dinâmica populacional junto com a natalidade e a mortalidade, Sandroni (1999).
Para Sandroni (1999), migração é um movimento populacional, que se dirige de uma região, área de emigração, para outra, área de imigração.
Embora seja difícil definir com precisão, Aina, (1995) citada por Raimundo (2002) diz que, migração refere-se à deslocação espacial dos indivíduos de uma área para outra durante um período relativamente longo. Isto contempla migrações internacionais, que são saídas para fora das fronteiras nacionais, migrações internas, que se referem à movimentação dentro das fronteiras de um dado país.
As migrações podem também ser definidas como “o conjunto de deslocações no espaço físico de indivíduos seja qual for a sua duração e a distância entre as deslocações”, (Cougeau, 1988). É verdade, que uma definição ampla como esta abrange todos os tipos de mobilidade espacial, mas em análise demográfica, não é a mobilidade espacial o objecto de estudo, porém as migrações. Não estamos perante palavras sinónimas, mas perante conceitos com conteúdos diferentes: a mobilidade é a capacidade de as pessoas se deslocarem no espaço, as migrações implicam a mudança de lugar de residência, ou seja, as migrações são mais amplas do que a própria mobilidade espacial, (Idem).
Neste caso, Raimundo a tal. (2009a) considera a mobilidade como a deslocação de uma população por um período temporário [não superior a 3 (três) anos], desde que tenha intensão de regressar ao ponto de origem. Neste trabalho a princípio, deveríamos utilizar a abordagem conceptual de Raimundo, mas revela-se insuficiente, pois poucos estudantes regressam às suas áreas de origem.
Neste estudo será adoptado o conceito lato de migração, como sendo “uma forma de mobilidade espacial entre uma unidade geográfica e outra, envolvendo mudança permanente de residência”, (Santos at. al, 1980 e Araújo, 2001). Apesar da tal definição não contemplar as populações nómadas, as migrações sazonais, o movimento de pessoas com mais de uma residência, os deslocamentos de visitantes, turistas e de pessoas, que viajam regularmente, (Araújo, 2001).
Pressupõe-se que, ao mudar de residência, o migrante altere simultaneamente os vínculos de trabalho, as amizades, as vizinhanças, e outros referentes à organização da sua vida, (Bogue, 1959).

Bilale (2007) citando Araújo (1997) considera, que as migrações escolares têm um peso considerável no crescimento demográfico das pequenas e médias cidades (...), dado que, os estudantes procuram melhorar as suas capacidades através do alcance de níveis mais altos do ensino e formação profissional.
A migração interna, em especial, para os centros urbanos, é um factor importante de desenvolvimento e contribui para o crescimento da população urbana, (Oberai, 1986).

Conceitos de mobilidade e suas acepções
Para Balbim (2004) mobilidade, nas ciências sócias, designa formas de movimento de homens, bens ou ideias, além de suas motivações, possibilidades e constrangimentos, que influem, tanto na projecção, quanto na realização dos deslocamentos.
Mobilidade espacial pode ser entendida também como a saída para as áreas circunvizinhas com um baixo nível de privação, (Clark, Ham & Coulter; 2001) . Numa análise superficial sobre este último conceito oferece-nos a ideia de uma dependência material ou económica, que por sua vez vai condicionar a migração, ou seja, para estes autores as pessoas só se vão deslocar para centros onde as economias são favoráveis à sua instalação.

Tipos de mobilidade
Existem vários tipos de mobilidade, mas a sua distinção depende em grande medida das diferentes acepções dos diferentes autores sobre esta temática transversal.
Balbim nas suas reflexões apresenta-nos diferentes tipos de mobilidade. Isaac Joseph (1984) aponta a existência de três mobilidades de base.
A primeira responde às características próprias do homem de ser um ser capaz de locomoção, que realiza encontros e experiências de co-presença.
A segunda mobilidade refere-se ao lugar específico do habitat urbano, fruto de uma relação particular entre a mobilidade social e a mobilidade residencial, esta última pode ser designada também por mobilidade quotidiana.
A terceira é aquela que George Simmel de mobilidade sem deslocamento, em referência à versatilidade do habitante da cidade em viver, por exemplo, o passar da moda como modo de vida, movendo-se transmutando-se, sem que haja mudanças de um lugar para o outro, (Balbim, 2004).

No dicionário breve de geografia editado por Garrido & Costa (1996) a mobilidade geográfica ou espacial é entendida como deslocação no espaço de pessoas, bens, serviços, equipamentos, capitais e informação. E, no dicionário editado por Brunet, Ferras e Théry (1993), a mobilidade é definida como uma forma de movimento, que exprime pela mudança de posição (geográfica ou social).

E, no dicionário de Geografia editado por Baud, Bourgeat & Brás (1999) a mobilidade geográfica pode constituir-se de deslocamentos quotidianos recorrentes, fruto de da separação entre o lugar de trabalho e habitação (migração pendular), de movimentos destinados às compras e ao lazer, ou, ainda, resultar de ritmos sazonais, imposições de ordem natural, etc. Os deslocamentos duráveis, com mudança de residência, podem ser impostos (deportação, exílio, êxodo) ou desejados (mudança de vida).

Afinal os tipos de mobilidade poderiam apenas no espaço geográfico ser sistematizados através de uma tipologia articulada em volta das dimensões temporal e espacial do movimento:
1 – temporal: intenção de retorno num curto espaço de tempo (movimento circular de ida e volta), ou, ao contrário, ausência de intenção de retorno breve (movimento linear).
2 – espacial: deslocamento interno ao lugar de vida ou deslocamento para fora desse lugar.
Como resultado, têm-se quatro tipos de mobilidade espacial ou geográfica, aqui não considerados, o sedentarismo e o nomadismo.
São eles: mobilidade quotidiana (movimento interno e cíclico); mobilidade residencial (movimento interno e linear); as viagens e o turismo (movimento externo e cíclico); as migrações (movimento externo e linear).

Alguns autores vêem toda mobilidade espacial como migração. Para a maioria, entretanto, deslocamentos migratórios envolvem a ultrapassagem de uma fronteira, e a unidade administrativa seleccionada é a denominada área definida da migração.

















Referências bibliográficas
Araújo, Ana Rosa; (2001). Manual de Demografia para estudantes de Medicina. CEP-UEM. Maputo
Araújo, M. G. M & Raimundo I. M. (2002) Evolução do Pensamento Geográfico: Um percurso na História do Conhecimento da Terra e das Correntes e Escolas Geográficas. UEM. Maputo
Balbim, Renato (2004) Mobilidade: Uma Abordagem Sistémica. São Paulo (Disponível em: http://homologa.ambiente.sp.gov.br/ea/adm/admarqs/Renato_Balbim.pdf). Acessado no dia 25 de Agosto de 2011.

Bilale, Cecília Castanheira (2007). A Mulher migrante na cidade de Maputo. UEM. Maputo
Clark William A. V. at al. (2001). Socio-Spatial Mobility in British Society. Bonn (Disponivel em http://ftp.iza.org/dp5861.pdf, acessado no dia 02 de Setembro de 2011).
Raimundo, I. M. (2002). From Civil War to Floods: Implication for Internal migration in Gaza province of Mozambique. Unpublished dissertation submitted to School of Geography, Archeology and Environmental Studies. University of Witwatersrand. Johannesburg.

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