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segunda-feira, 28 de junho de 2010

O escombro e os seus Contornos

Surgimento do Escombro
Ele gostava de ficar sozinho e assim melhor se sentia. Sozinho. No seu périplo diário que o grupo constituído pelo Aurélio e António fazia, interceptou-se com o Fernando que em diversão ia riscando o chão como se soubesse ler e escrever. Os dois divorciaram-se do grupo em que se encontravam imediatamente sem prévio aviso nem motivo para assim o fazerem e os elementos do grupo repletos de espanto e indignação começaram a se interrogarem com muita… impaciência extravagante.
- O que é que se passa?
- Para onde é que vão o Aurélio e o Antony?
- Será que eles conhecem aquele nyolweni?
O Aurélio e o António não quiseram dar cunho nem relevância às inquietações que concomitantemente eram vomitadas em rajada pelos constituintes do grupo. Limitaram-se a interpelar educadamente o Fernando. E ele não deu asas as suas palavras. A dupla ficou interessada. E logo começou a se interrogar também. A cena ia aquecendo. Ia voando. Ia navegando, tangindo patamares não atempadamente previstos, fatigando o resto da gang.
- Que nyolweni é esse orgulhoso e que se faz de civilizado como aqueles brancos que vêm do além-mar?
Ficaram alguns minutos cobertos de silêncio. O Fernando parecia uma estátua abandonada no meio do Kalahari. Uma estátua sem denominação. Estátua sem grito. Nem clemência. Parecia um menino rancoroso, chato, corvo, parvo; ele parecia tudo menos nada. Um menino exilado pelo silêncio da sua boca no limiar da conversa. No meio daquela gente toda, ele era o único que sua cara não brotava nem esboçava pelo menos uma palavra sequer muito menos um sorriso como é humanamente aceite. Pelo contrário, apenas incendiava com as suas pupilas todas as azagaias que se encontravam nas suas cercanias sem possibilidade de escapolir alguma.
- Ele deve ser mudo. Aqueles timbeveves, timbeveves que vêm do mar e que não falam, só reparam.
Por fim, ele reparou para eles e perguntou.
- O que é que vocês querem afinal de mim? Rematou o Fernando sem piedade nem possiblidade de defesa por parte dos seus adversários directos. Aliás, menino da rua nunca tem piedade. Tudo para ele é fim. Não há início nem parte mediana. Tudo deve ser tratado como fim. Um fim infernal e se possível imperdoável. Dentro de si pensava com muita avidez. “Assim que os meus pais me abandonaram impiedosamente para quê ainda ter pena de um ser humano. Eu sou ser humano, e os meus pais não me quiseram ter. Para quê essa vida toda? Tanta perseguição.”
- Queremos ser teus amigos. Ganharam coragem e reagiram.
- Não. Não e não. Acabou, não há quem vai ser amigo de ninguém aqui, prontos! Eu não quero ter amigo nem amiga. Tão-somente quero viver sozinho, aliás, até que a mim isto me faz bem. Não a amizades, pior com estranhos. Eu sozinho me basto. Nem os meus problemas consigo os resolverem todos. Já imagino contemplá-los convosco também. Vocês entrarem na minha vida particular, íntima. Não. Isso não me cheira bem. O meu sexto sentido faz-me pressentir algo estranho, que são vocês, a estranheza da minha vida e dubiedade. Minha vida seria um escombro como a Cidade de Port-au-Prince no Haiti. Não quero. Está dito. Agora podem ir embora, já bastou a má disposição que me causaram logo nesta matinal.
- Sabes, o mundo não é solitário, por isso, Deus sempre quis e uniu o macho a macha para melhor resolverem juntos os seus problemas, aliás, mesmo o próprio Deus, dizem que se divide em três: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Para quê você ficar sozinho e solitário como um tronco seco abandonado pela fúria friorenta e desértica. Rematou a dupla fortemente. O Fernando parou um instante. Acenou a cabeça e cedeu. Assim, tornam-se grandes amigos na primeira instância e por último familiares, diga-se...

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